Circuito W em Torres del Paine: só para os fortes

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Por Juliana Cherulli

Verde, verde, verde! Olho para o lado depois de levantar da escorregada que dei nas pedras e provavelmente dei mau jeito no joelho, e tudo que vejo é do mais vibrante verde que já vi. O medo de olhar para o lado esquerdo e perceber que a próxima queda pode ser a última não se dispersa, nem mesmo o medo de estar sozinha na trilha pra chegar ao acampando Central, que antes parecia o mais conveniente, agora é só o mais distante, ainda faltam oito quilômetros. A lanterna dentro da mochila que já está inteiramente molhada corre o risco de não funcionar. Apesar do horário de verão e da ciência de que só escurece por volta de 21h30 ou 22h não ameniza a neblina que chega cada vez mais perto e a hora que vai passando mais rápida a cada passo.


Ao contrário da ida, na volta quase não encontrei pessoas na trilha. Um pai que acompanhava a filha com o joelho machucado e apoiada em um galho, andava devagar torcendo pra filha não piorar e pra chegaram logo ao acampamento chileno. Três chinesas tentam caminhar no mesmo ritmo pra que nenhuma fique pra trás. O senhor de bolsa atravessada no peito que vez ou outra para pra observar a paisagem, mas é o rio com águas bravas que mais o impressionam. Ali ele fica alguns minutos, do outro lado da ponte mais alguns. O casal com uma roupa de impermeabilidade e qualidade muito boa. Impressionante! Estavam secos àquela altura. Devia ter perguntado que marca era aquela.


A família de japoneses, a filha mais velha puxa a turma, – “falta muito pra chegar no acampamento chileno?” – Falta, mas é só metade do caminho subida e a outra metade descida. – uhuuuuuu “palavras em japonês”. A família responde com “uhuuuuuu” e continua a subida íngreme onde não se vê o horizonte. Be careful! A trilha de volta vai ficando complicada. Vai se formando uma trilha de água, um mini rio, até o momento que não dá mais pra andar com as botas pra fora da água, elas já estavam encharcadas mesmo. Começo a tentar ver vantagem no spray impermeabilizante que teve a durabilidade de umas três horas e meia na ida. O joelho já não dobra, entre água e pedras a descida é interminável. Começo a lembrar de ter passado por aquele lugar no caminho de ida. “Aqui foi onde passaram as crianças, aqui onde ventou tanto que tive que sentar, aqui onde comecei a acompanhar o ritmo das chilenas que estavam confusas sobre de onde elas eram. Ali é só atravessar a ponte que passa sob o rio. Merda. Tem água passando quase em cima da ponte. Corre”, eu pensando.

A chuva  não deu um minuto de trégua, só mais uma subida e tinha certeza que conseguiria avistar as casinhas, só mais um quilômetro e conseguiria avistar a “rua” que dá pro camping. – “Moço, ainda falta muito pro camping Central?” “Segue a rua até o final e vai pela diagonal na esquerda.”

A chuva não parava. Nesse momento, o medo é chegar e ver que a barraca desmontou ou não aguentou tanta água assim como aconteceu com toda a minha roupa, sapatos, e mochila, mas a barraca número oito azul turquesa estava de pé, e dentro dela tudo seco. O primeiro impulso foi tirar toda a roupa molhada, e colocar as últimas roupas secas, nessa ordem. Depois soprar pra encher o isolante térmico. Com que fôlego, meu Deus? E, por cima, tacar o saco de dormir, pra já ir esquentando as pernas. O cansaço é tão inexplicável que não consegui abrir uma lata de atum pra tacar no pão e comer. Só consegui terminar o chocolate, já aberto, e devorar um kiwi. Assim teria um saco plástico pra salvar o celular do dilúvio que estava por vir, no dia seguinte.

 

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